Velocidade máxima – exercício de interpretação

Uma das coisas nas quais mais dou ênfase no meu curso Português Pra Passar é a interpretação de textos. Entendo que a partir dessa competência, os alunos serão capazes de ir melhor nas provas de outras disciplinas, escreverão melhor e, consequentemente, suas notas aumentarão. Neste artigo quero compartilhar um exercício que usei nas minhas aulas de interpretação de texto para o Enem. A partir da leitura do texto abaixo, proponho uma série de perguntas dissertativas para as quais já fiz o gabarito. Você poderá conferir logo após os exercícios. Bons estudos e, caso queira conhecer um pouco mais o curso de que falei, clique neste link.

Velocidade máxima

Para vencer na vida não é preciso deixar de viver

Você está cansado de saber que hoje em dia não basta ter conhecimento: é preciso ser rápido. Rápido na tomada de decisões, no trato da informação, na geração de novas ideias (e na sua transformação em novos centros de receita), no desenvolvimento da própria carreira. Tornou-se imprescindível pensar rápido, agir rápido, ter um computador supersônico. No mundo dos negócios, não existe um código nacional de trânsito que limite a velocidade dos executivos. Se houvesse, recomendaria: corra. Multa, só para os lentos.

Os devagar-quase-parando não se estressam para assumir um posto de comando. Sua motivação não está em conquistar prêmios ou um bónus mais polpudo. Não fazem hora extra e, se puderem escapar de uma reunião, tanto melhor. Estão em dia com seus batimentos cardíacos e seus níveis de colesterol. Dormem 8 horas por noite; não têm insónia. Passam os fins de semana na praia com o celular desligado. Encontram tempo para ver os filhos e os filmes em cartaz. Estão em casa na hora do Jornal Nacional. Profissionais de Neandertal.

Voltar à caverna, no entanto, está sendo considerada uma atitude moderna. Ao menos é o que prega há anos o sociólogo napolitano Domenico De Masi, que viaja pelo mundo dando palestras que enaltecem as virtudes do ócio criativo. De Masi acredita que trabalhar 10 horas por dia aniquila a criatividade e que todos deveriam cortar pela metade sua carga horária, aproveitando o resto do tempo para fazer qualquer coisa longe das tarefas cotidianas do escritório. Vale bungeejump, vale meditação, vale ouvir Beatles.

Há quem pense que essa desaceleração é zen-budista demais para quem tem metas concretas como comprar e vender ações na Bolsa de Nova York ou virar presidente de empresa antes dos 40 anos. Mas não há como negar que a inteligência e a cultura são, cada vez mais, os combustíveis que geram novos negócios e determinam a própria ascensão de um profissional. E nenhum dos fatores precisa do horário comercial para ser ativado. Podem estar em combustão durante um mergulho no mar, durante a leitura de um poema, durante uma cavalgada ecológica, talvez até durante o sexo. Durante é exagero. Depois do sexo.

compatível com não perder tempo”. O conceito de velocidade anda cada vez mais flexível. Para alguns, ser ligeiro significa ultrapassar os ponteiros do relógio, executar um projeto a cada minuto, agendar reuniões, ler apenas livros técnicos, só fazer contatos que sejam política ou economicamente rentáveis e sentir uma culpa tremenda nos coffee breáks, como se parar fosse sinónimo de regredir.

Já para o neo Neandertal, que prefere Saramago a Philip Kotler, e Marguerite Duras a Tom Peters, manter um ritmo comedido pode realmente fazer o trabalho render mais. São pessoas que não têm pressa de subir pelo elevador, por exemplo. Preferem subir pela escada, exercitando as pernas e a imaginação, ou jogando conversa fora com um desconhecido. Não têm a pressa de apresentar pareceres e pontos de vista em 60 segundos. Ao contrário, dedicam seu tempo a escutar os pontos de vista alheios. Não têm a pressa de engolir um sanduíche em pé no escritório; reservam um tempo para fazer da gastronomia um hobby. Sem pressa, eles não pegam atalhos: procuram caminhos com paisagem e assim não sofrem com taquicardias e infartos. O estresse envelhece antes da hora. Inclusive as ideias.

O mundo se apresenta hoje como uma autoestrada alemã, livre de radares patrulhando a velocidade, onde quem tem mais potência e tecnologia pisa mais fundo, sem olhar para os lados. Você há de concordar que é tenso. Tirando levemente o pé do acelerador, o coração acalma e os olhos percebem melhor o que há nas laterais da pista. Pode-se trocar de música, ajeitar o retrovisor, prestar atenção no que diz o companheiro de viagem. Ou parar e provar uma fruta na beira da estrada. F,az-se tudo correndo muito menos risco de sofrer acidentes e chegando ao destino do mesmo jeito. Na moda, costuma-se dizer que “menos é mais”. Não é uma frase que se aplique literalmente ao mundo dos negócios. Mas sou obrigada a concordar tanto com De Masi quanto com Saramago: a velocidade máxima permitida para vencer é aquela que não nos deixa esquecer que, além da estrada, existe um troço chamado vida, sem a qual não faz o menor sentido chegar lá.

MEDEIROS, Martha. Exame. São Paulo: Abril, 15 dez. 1999. p. 218.

1. Assim que terminamos de ler esse texto, percebemos que a autora quis expressar algumas ideias a respeito de um novo profissional que emerge nos dias atuais. Escreva um parágrafo resumindo a ideia principal do texto.

2. Antes de redigir seu texto, a autora certamente organizou suas ideias a fim de torná-lo coeso e coerente. É possível observar essa organização se nos detivermos em cada parágrafo para extrair a ideia desenvolvida em cada um. Releia o texto e resuma a ideia principal de cada parágrafo em uma frase.

3. Em que parágrafo a autora começa a expor realmente seu ponto de vista?

4. O que ela nos apresenta antes disso?

5. Que recurso é utilizado pela autora para expor seu ponto de vista?

6. Ao se organizar um texto tendo em vista a defesa de um ponto de vista, é muito importante a articulação entre os diversos parágrafos que o compõem. Esse trabalho garante a coesão entre as ideias expostas. Mostre como a autora faz essa articulação nos três primeiros parágrafos (observe em especial a utilização de conjunções e a forma como ela encadeia as ideias).

7. A partir do momento em que se observa uma tomada de posição da autora em relação ao assunto, percebe-se que ela apresenta argumentos para sustentar tal posição. Cite alguns desses argumentos.

8. É possível dizer que, quando alguém defende um ponto de vista, também está tentando persuadir o interlocutor. Destaque alguns recursos persuasivos utilizados pela autora.

9. Como já vimos, dificilmente um texto é construído a partir de uma única voz; ao contrário, é muito comum encontrar, no meio de um discurso, o discurso de ou-trem. No texto em questão percebem-se, pelo menos, quatro vozes muito bem demarcadas. Identifique-as.

10. Você concorda com o ponto de vista exposto nesse texto? Exponha sua opinião, fundamentando-a com argumentos convincentes.

11. Comente a seguinte afirmação: “De Masi acredita que trabalhar 10 horas por dia aniquila a criatividade e que todos deveriam cortar pela metade sua carga horária, aproveitando o resto do tempo para fazer qualquer coisa longe das tarefas cotidianas do escritório.”.

12. Na sua opinião, que implicações haveria no mundo do trabalho se essa medida fosse adotada?

13. No mundo atual essa ideia é possível?

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Gabarito dos exercícios

1. Resposta pessoal. (A autora apresenta a teoria do sociólogo Domenico De Masi, segundo a qual as melhores ideias relacionadas ao mundo do trabalho surgem exatamente nos momentos de lazer – ou de ócio, para usar palavras do próprio sociólogo. Para apresentar tal teoria, ela compara o novo profissional, denominado por ela de neoneandertal, com o executivo que não se desliga do trabalho em momento algum de sua vida. Percebe-se no texto uma clara preferência da autora pela visão moderna de profissional: aquele que trabalha seriamente, mas não abandona o lazer, a vida familiar, e atribui valor também ao aspecto humano nas relações entre pessoas.)

2.
1° parágrafo: Expõe a teoria de que, para vencer na vida atualmente, é preciso muita rapidez, além de recursos e muito tempo dedicado ao trabalho.
2° parágrafo: Faz referência a profissionais que não se deixam tiranizar pelo tempo e pelo trabalho (“Profissionais de Neandertal”). (Destacar que houve uma nítida intenção de construir uma antítese entre o primeiro e o segundo parágrafo.)
3.° parágrafo: Expõe a teoria do ócio criativo de De Masi.
4.° parágrafo: Revela a adesão da autora à teoria de que as boas ideias, fundamentadas na inteligência e na cultura, podem surgir nos momentos de lazer.
5° parágrafo: Mostra a flexibilidade do conceito de velocidade; seu significado para os “rápidos”.
6.° parágrafo: Cita atitudes humanas diante dos fatos do novo profissional que tem ritmo comedido.
7.° parágrafo: Conclusão: Expressa concordância com o sociólogo e com o escritor Saramago, também citado no texto.

3. No quarto parágrafo.

4. Antes disso ela apresenta um rápido panorama das duas correntes existentes hoje no ramo dos negócios: no primeiro parágrafo, a corrente dominante, dos profissionais completamente envolvidos pelo trabalho; no segundo, a corrente contrária; no terceiro, a fundamentação teórica da segunda corrente, para ela, a mais moderna.

5. Ela utiliza a comparação entre os dois modos de encarar o trabalho.

6. Entre o primeiro e o segundo parágrafo há uma relação de oposição. No nível das palavras, essa relação se faz pela escolha de termos como”rápido”(quatro vezes),”os lentos”, “os devagar-quase-parando”. A autora apresenta as duas correntes contrárias, deixando que o leitor de certa forma considere a segunda um tanto absurda, pois não é senso comum achar que se valoriza um profissional como o descrito no segundo parágrafo. No terceiro, porém, ela apresenta a teoria que fundamenta essa corrente, mostrando ao leitor que no mundo atual há uma nova avaliação desses fatos. A locução conjuntiva responsável por essa ligação é no entanto.

7.
1.°) A inteligência e a cultura substituem o trabalho exaustivo no escritório. “E nenhum dos fatores precisa do horário comercial para ser ativado”;
2.°) O fato de que o conceito de velocidade está cada vez mais flexível e a citação da frase do escritor Saramago: “Não ter pressa não é incompatível com não perder tempo”;
3°) A apresentação do “neoneandertal” como uma pessoa bem mais humana do que o “rápido”, ideia reforçada pelas frases “O estresse envelhece antes da hora. Inclusive as ideias”;
4.°) A imagem da autoestrada alemã.

8. Um recurso persuasivo é a linguagem utilizada pela autora, muitas vezes descontraída e brincalhona, para aproximar-se do leitor (talvez uma ironia a quem não acredite nesse novo profissional), quando usa expressões como “os devagar-quase-parando”, o “neoneandertal”. Outro é a citação de frases de pessoas consagradas (como a do escritor José Saramago), que autorizam e amparam quem está defendendo uma ideia. A imagem da autoestrada alemã também é um recurso persuasivo, pois trata de forma concreta uma ideia abstrata, o que torna mais fácil sua compreensão.

9.
1. A voz da “dona” do discurso, ou seja, a voz de Martha Medeiros, que assina o texto.
2. A voz dos que defendem a velocidade como elemento fundamental para o sucesso no mundo moderno (marcada no texto por expressões como: “Você está cansado de saber que […]”;”Há quem pense […]”).
3. A voz do sociólogo napolitano Domenico De Masi.
4. A voz do escritor português José Saramago. Há, ainda, uma quinta voz demarcada no texto, em forma de discurso indi-reto, mas destacada por aspas: a de pessoas que vivem o mundo da moda e afirmam que “menos é mais”.

10. Resposta pessoal.

11. Resposta pessoal.

12. Resposta pessoal.

13. Resposta pessoal.

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