Existe fórmula mágica para escrever bem?

Muito se discute sobre a “fórmula mágica” que nos possibilitaria redigir um bom texto ou, como querem alguns, produzir uma redação “nota dez”. Estando em sala de aula há tanto tempo, não foram poucas as situações nas quais os alunos pediram a “receita” para escrever bem. Aprendi que aqueles que me pediam isso queriam atalhos para compensar a falta de empenho dos mesmos ao longo das aulas. Mas isto é história para outro momento.

Em primeiro lugar, gostaríamos de confessar, humildemente, que não temos (nem inventamos) a receita dessa poção mágica; em segundo, que não conhecemos ninguém que a possua. Infeliz… ou melhor, felizmente.

Por outro lado, reafirmamos uma convicção: tornando-nos leitores atentos de bons textos; assumindo uma postura crítica ante os vários textos que circulam em nosso cotidiano; dominando alguns recursos linguísticos básicos; refletindo sobre a realidade, é possível, ao longo do tempo, aprimorar a qualidade de nossos textos.

Um leitor “preguiçoso” é incapaz de interagir com o texto lido. Consequentemente, não aprimora sua leitura de mundo, não acrescenta subsídios para a produção de seus futuros textos. Com toda certeza, o primeiro passo para se tornar um competente produtor de texto é ser leitor atento, atuante.

Esclarecemos, também, que produzir um bom texto não significa produzir uma obra literária. Um texto competente elaborado para determinados fins, escolares ou profissionais, não se confunde, em hipótese alguma, com um texto literário produzido para fins artísticos.

Ao longo dos artigos deste site, procuraremos tirar o máximo proveito da leitura de variados gêneros e tipos textuais, comentando alguns recursos explorados pelos autores, com a intenção de transformá-los em exemplos, modelos a serem seguidos. Assim, aprender a escrever uma redação nota mil não será uma tarefa impossível.

É interessante, ainda, entender que saber escrever pressupõe, antes de mais nada, saber ler e pensar.

O pensamento é expresso por palavras, que são registradas na escrita, que, por sua vez, é interpretada pela leitura. Como essas atividades estão intrinsecamente relacionadas, pode-se concluir que quem não pensa (ou pensa mal) não escreve (ou escreve mal) e quem não lê (ou lê mal) não escreve (ou escreve mal).

A leitura não só nos aproxima dos mecanismos da língua escrita, mas também é fonte inesgotável de ideias que nos ajudarão na tarefa de escrever: “Os nossos conhecimentos são os germes das nossas produções”, afirmou o naturalista e escritor francês Buffon (1707-1788).

Ler, portanto, é fundamental para escrever. Mas, como já afirmamos, não basta ler; é preciso entender o que se lê. É necessário compreender o sentido da organização das frases num determinado texto para que se cumpra uma das finalidades da leitura: a compreensão das ideias, que se dará a partir do entendimento dos recursos utilizados pelo autor na elaboração do texto. É bom lembrar que não podemos separar a compreensão da ideia da compreensão dos recursos, porque estes (os recursos) são o suporte daquela (a ideia): somente compreendemos uma ideia porque ela foi expressa de uma determinada maneira e não de outra.

Mas, afinal, o que é um texto?

Nestes primeiros artigos no site, até agora já empregamos dezenas de vezes a palavra texto; já lemos textos, comentamos, de passagem, algumas características desses textos e alguns recursos empregados por seus autores.

Pudemos perceber que, em sentido amplo, texto é qualquer tipo de manifestação através de um sistema de signos, o que engloba textos verbais e não verbais (a tirinha do Calvin, por exemplo, é um texto que apresenta cruzamento verbo-visual, ou seja, explora a linguagem não verbal do desenho e a linguagem verbal, nas falas dos personagens).

Se o foco é a linguagem verbal, podemos conceituar texto como um todo que produz sentido, ou seja, o texto deve ser autônomo. Pode ser constituído de uma única palavra usada numa determinada situação (por exemplo: “Fogo!” dito por alguém que percebe os primeiros indícios de um incêndio) ou por inúmeras palavras que constituem um livro ou um discurso, um artigo ou um editorial de jornal.

Portanto, a rigor, uma frase retirada de um contexto e, por isso, incapaz de produzir sentido, não pode ser considerada texto.

O texto pode coincidir com uma frase como com um livro inteiro; ele se define por sua autonomia e por seu fechamento (mesmo que, num outro sentido, certos textos não sejam “fechados”). […] A propósito do texto, falar-se-á do ASPECTO VERBAL, que será constituído’por todos os elementos propriamente linguísticos das frases que o compõem (fonológicos, gramaticais, etc); do ASPECTO SINTÁTICO, referindo-se não à sintaxe das frases, mas às relações entre unidades textuais (frases, grupos de frases, etc); do ASPECTO SEMÂNTICO, produto complexo do conteúdo semântico das unidades linguísticas.

DUCROT, Oswald; TODOROV, Tzvetan. Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1998.

Textualidade

Textualidade ou textura é o que faz de uma sequência linguística um texto e não uma sequência ou um amontoado aleatório de frases ou palavras. A sequência é percebida como texto quando aquele que a recebe é capaz de percebê-la como uma unidade significativa global. A coerência é que dá origem à textualidade.

KOCH, Ingedore G. V; TRAVAGLIA, Luiz C. Texto e coerência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

Como se observa, textualidade é a condição fundamental que distingue um amontoado de frases de um texto, lembrando que um mero amontoado de frases ou de palavras não é capaz de produzir sentido. A textualidade é dada principalmente pela coerência textual, mas não podemos deixar de apontar alguns outros elementos textuais como: coesão, intencionalidade, intertextualidade e condições de interlocução, assuntos que serão temas de outros artigos lá no site http://redacaonota1000.net/ .

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