Personagem é palavra feminina ou masculina?

Quando estou em sala de aula tratando de Gêneros Textuais, ao falar das características das narrativas, sempre alterno entre “O personagem” e “A personagem”. Vejo que alguns alunos ficam um pouco apreensivos em perguntar qual a forma correta e logo percebo que é hora de tratar disso e dos outros elementos que, lá nas séries iniciais, chamamos de PENTE (personagem, enredo, narrador, tempo e espaço). E você? Já ficou na dúvida se deveria dizer “O” personagem ou “A” personagem? Lancei esta pergunta na nossa comunidade do Facebook e várias foram as respostas que tive. Gosto muito da interação no Facebook, mas é tanta informação saltando na tela que fica difícil, às vezes, manter cativo o público e criar o hábito da visita constante. Por isso mesmo que vim pra cá pra escrever este artigo rápido, porém bem fundamentado. Vamos ver então se a palavra personagem é masculina ou feminina.

A palavra “personagem” é originária do latim “persona” e designava a máscara que os atores do teatro usavam na frente do rosto ao representar os papéis. Você sabe que desde a Grécia as mulheres estavam proibidas de comparecer aos espetáculos públicos do teatro? E também, por serem julgadas inferiores, não podiam participar da encenação?
Dessa forma é que as “personas” foram criadas: máscaras femininas que eram usadas por homens que representavam mulheres no palco.
As máscaras que hoje representam o teatro (uma que chora e outra que ri, quase que entrelaçadas) são a representação das tais “personas”. Ou seja, personagens são representação dos seres humanos.
Pra que não fiquemos apenas nas minhas palavras, vejam o argumento de autoridade que fundamenta o que eu disse. Leia, portanto, o que o professor Massaud Moisés, em seu Dicionário de Termos Literários escreve:

“A própria etimologia do vocábulo assinala uma restrição semântica que merece registro: animais não podem ser personagens, menos ainda os seres inanimados de qualquer espécie. Quando comparecem ao universo ficcional, os animais tendem a ser meras projeções das personagens (como no caso de Quincas Borba), ou denotam qualidades superiores à sua condição, uma espécie de “inteligência” humana (como a Baleia de Vidas Secas), ou servem de motivo para a ação (como em Moby Dick). Os apólogos ou fábulas utilizam os animais como protagonistas, mas envolve-os de um halo simbólico que os subtrai do círculo zoológico interior para alçá-los ao perímetro humano.” (p. 397, Editora Cultrix)

Leia a seguir um texto do realista Machado de Assis.

Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
– Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
– Deixe-me, senhora.
– Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
–  Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
– Mas você é orgulhosa.
– Decerto que sou.
– Mas por quê?
– É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
–  Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
–  Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
– Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…
–  Também os batedores vão adiante do imperador.
–  Você é imperador?
– Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.
Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
– Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
–  Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
– Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: -Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
(Machado de Assis “Para Gostar de Ler – Vol. 9 – Contos”, Editora Ática, São Paulo, 1984, pág. 59)

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